Junta de Freguesia de Dornelas do Vouga Domingo, 05 de Setembro de 2010
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Resenha Histórica da Freguesia de Dornelas
Domelas, a mais jovem freguesia do concelho de Sever do Vouga, dista cerca de oito quilómetros da sede concelhia. O seu orago é Nossa Senhora de Fátima, celebrada na freguesia no último fim-de-semana de Julho.
As actividades económicas de Dornelas centram-se essencialmente na agricultura, sendo esta o principal meio de subsistência dos seus habitantes; a proximidade da Serra do Arestal, proporciona as condições ideais para a coexistência de uma outra actividade económica, a transformação de madeiras, que desempenha, assim como a agricultura, um importante papel na economia local. Embora seja uma freguesia muito recente, regista já um notável desenvolvimento em diversos sectores.
Da sua história, destacam-se o Lugar de Zibreiros "mons Zebrario", nome primitivo da Serra do Arestal, e o Lugar de Reguengo, que significa "terra directamente pertencente ao rei” estes dois lugares, inicialmente pertencentes a Silva Escura, foram desanexados formando a actual freguesia de Dornelas, a 30 de Junho de 1989.
De entre o seu património cultural edificado, destacam-se os típicos moinhos de água dos rios Bom e Filveda.
A freguesia de Dornelas, situada na encosta poente da Serra do Arestal, foi criada em 30 de Julho de 1989 pela desanexação de povoações então pertencentes à freguesia de Silva Escura.
Do ponto de vista histórico, refiram-se os lugares de Zibreiros ("mons Zebrario" - nome primitivo da Serra do Arestal) e Reguengo, isto é, terra directamente pertencente ao rei. Junto ao lugar de Rio Bom nasce o principal afluente do Vouga, curiosamente designado de Rio Bom até ao centro de Silva Escura passando a designar-se Rio Mau daí para jusante.
Dornelas, sendo uma pequena povoação e recentemente criada, não possui ainda um património artístico de registo, contudo, a sua Igreja Matriz de linhas modernas, merece uma visita.
As componentes culturais e desportivas da freguesia são asseguradas pela Associação Cultural e Desportiva de Dornelas do Vouga . Esta colectividade está especialmente vocacionada para o atletismo e futebol de cinco, mas tem também um grupo de cantares tradicionais.
Uma última referência para aqueles que pretendam descer o Arestal em direcção a Dornelas: a panorâmica sobre a Costa Lagunar de Aveiro é simplesmente fabulosa.
Feiras: Feira de Santiago-Arestal (de gado, dias 25 de cada mês) e Feira Franca de Santiago (25 de Julho).
Festas e romarias: Nossa Senhora das Necessidades (último domingo de Abril), 4 Nossa Senhora de Fátima e Necessidades (último fim-de-semana de Julho) e Fundação da Freguesia (30 de Junho). Gastronomia: Vitela assada e bilharacos (doce de abóbora).
Artesanato: Tecelagem, tanoaria e carros de bois.


Resenha Histórica do Concelho Sever do Vouga
Antes de mais, façamos uma breve resenha histórica daquela que foi chamada Terra de Sever, integrada na Terra de Santa Maria até final do primeiro quartel do século XII, com o limite natural do Rio Vouga, a sul, e que a luta intestina entre dois Bispos ( Porto e Coimbra ) fez recuar até ao Antuã, no concelho de Estarreja.
Santa Maria vinha do tempo da dominação visigótica e cresceu a partir de uma " civitas" romana, por alturas da feira, que os cavaleiros leoneses e asturianos foram alargando para sul até ao Vouga, no final do século IX, à medida que a reconquista cristã se ia consolidando com os sucessivos avanços e recuos até à tomada definitiva de Coimbra, por Fernando Magno, em 1064.
Não obstante, a separação física da terra de Sever do território de Santa Maria não afectou as afinidades humanas entre os seus povos, que haveriam de perdurar pelos séculos em fora, como ficou bem patente nas disposições comuns de alguns forais manuelinos concedidos a certos concelhos do território, entre os quais o de Sever.
A reconquista cristã iniciada pelo conde Hermenegildo Guterres trouxe e espalhou em toda a terra entre o Douro e o Mondego alguns nobres asturianos, especialmente da chamada nobreza militar, pelos quais foram distribuídos os bens tomados sob a forma de " presúria ". Assim nasceram as grandes casas de toda essa região, designadamente as do Marnel, Grijó e Sousa, que entre si estabeleceram laços familiares. É de crer que os mandantes em Sever – e não há provas de que os primeiros aqui residissem – descendessem directamente da casa do Marnel, ou pelo menos aí aparentados.
Do que não há dúvida e vem referido em documentos do século X, é da existência de um " dux" de nome Mem Guterres, cunhado do rei leonês Ordonho I, que os muitos haveres de que era possuidor na região se contavam também os de Sever. Era pai do conde Hermenegildo Mendes e de Enderquina Mendes " Pala", herdeira do Marnel, que veio a casar com o conde portugalense Gondesindo Eres.
Deste casamento nasceu D. Soeiro Gondesindes, realmente o primeiro prócere de Sever, que casou com uma ilustre senhora de nome D. Goldrogodo.
A extirpe que proveio deste casamento é conhecida por muitos anos na região, aqui possuindo grossos haveres, incluindo os mosteiros ou pequenos cenóbios, mais tarde doados ao mosteiro da vacariça, como está largamente demonstrado nas várias doações através das competentes escrituras.
Tudo isto se passou antes da fundação da nacionalidade.
Contudo, Sever existia como tal séculos antes destes acontecimentos, habitada por povos pré- históricos que deixaram as marcas indeléveis da sua passagem, não só através de enormes monumentos funerários (dolmens na Cerqueira, que no seu conjunto constituem uma necrópole; e em Talhadas- Chão Redondo. e Arcas- Capela dos Mouros) mas também na arte rupestre ( Salgueiral – Arestal, encontrada e estudada pelo eminente Dr. Alberto Souto ), objecto de comunicação em congressos da especialidade.
Se aqueles são sepulturas funerárias de chefes tribais, esta – a arte rupestre – conhecida pela designação popular de " Fornos dos Moiros " é constituída por um conjunto de petróglifos gravados numa pedra com 4,5 m de comprimento por 1,5 m de largo, onde abundam as formas geométricas de círculos, covinhas e espirais, separados por um sulco longitudinal profundo.
O significado desta simbologia, integrada na arte rupestre do noroeste peninsular, é ainda desconhecido. Alguns estudiosos propendem para lhe atribuir a significação de magia ou local de devoção religiosa; outros inclinam-se para a simples manifestação de trabalho voluntário de artistas.
Seja como for, a verdade é que estamos perante monumentos grandiosos que carregam o peso dos milénios, herança de antepassados que urge preservar por todos nós como elementar obrigação. Destes recuados tempos encontram-se ainda espalhados pelo concelho, em elevações propícias à defesa, vários castros, castrelos, cristelos ou castrejos, onde foram encontrados artefactos de pedra polida e de bronze, prova evidente de que ainda aqui permaneciam na Idade dos metais.
Outros povos vieram com o arar do tempo. Os romanos, povo civilizado, aqui estiveram não se sabe de quando até quando. Sabe-se apenas, com certeza, que aqui permaneceu uma pequena colónia nos séculos I ou II d. c., a cavar buraco para extracção de minério ( galena) e a calcorrear a serra, abrindo caminho para as legiões que da estrada imperial de Aeminium a Cale seguiam par o interior a partir do Marnel, deixando marcos milenários à medida que avançavam, em homenagem aos seus Imperadores.
Foi um deles, um certo Severus, que fundou a villa Severi; outro a villa Stephany (Esteves) à qual, séculos depois se associou o couto demarcado por D. Afonso Henriques e ainda mais outro a villa Sereni ( Serém), aqui bem perto, tudo nas imediações. São as provas da sua alta antiguidade.
Quem foram eles? Donde vieram? Não o sabemos. O vento os trouxe, o vento os levou. Mas deixaram o nome ligado à terra, que por esse motivo é de origem romana. Mas não só aqui. Por toda a península hispânica as escavações trouxeram à luz do dia placas que evocam o nome de Severus, com isso parecendo que o antropónimo se vulgarizara até à ocupação visigótica.
***
Até 1836 o concelho compunha-se apenas de seis freguesias, cinco das quais constituídas até final do século XIII, e a Sexta – Paradela - a partir de 1740, desanexada de Pessegueiro por decisão da Câmara Eclesiástica de Viseu.
Couto Esteves, que na época medieval pertenceu à paróquia de S. Miguel da Ribeira ( Ribeiradio), foi transformado em concelho independente em data indeterminada, assim permanecendo até à reforma administrativa operada no referido ano de 1836, após o fim das lutas liberais. Foi integrado no concelho como freguesia – a sétima. Talhadas, que fez parte do concelho do Vouga até 31 de Dezembro de 1853, data da sua supressão, foi integrada também neste concelho – desde logo a 8 ª freguesia.
Mas o número de freguesias não ficaria por aqui. Por vontade soberana do povo da parte alta da freguesia de Silva Escura, que sempre vivera afastado do seu centro com todos os inconvenientes que resultam da distância, entendeu estarem reunidas as condições para criarem a sua própria freguesia. O desiderato foi conseguido com a publicação da lei n º 83/89, de 30 de Agosto, desanexando-se o seu espaço territorial da de Silva Escura – freguesia mãe – pelo que, deste modo, se elevou de oito para nove o número das autarquias que constituem, presentemente, o concelho de Sever do Vouga.
Simultaneamente e por decreto diocesano de oito de Dezembro do mesmo ano, o Bispo de Aveiro criou canonicamente a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima de Dornelas, com os mesmos limites administrativos da freguesia.
Dornelas é, pois, a neófita, a moça bonita, a menina dos olhos do seu povo, alcandorada na aba poente da serra do Arestal, ponto mais alto do concelho que a limita a nascente, onde, para além do verde alpestre dominante e do silêncio grave das suas alturas, se enxergam horizontes deslumbrantes até à orla do Atlântico; e cá em baixo, no seu seio, marginando a E.N. 328 que a atravessa longitudinalmente, os campos verdejantes, em plano ou em socalco, suscitam um hino de consagração ao heróico esforço do Homem através dos tempos, de resto extensivo a todo o concelho.
Geograficamente, situa-se a norte do concelho, coincidindo os seus limites a nascente e norte com a delimitação da freguesia de Silva Escura à data da sua criação, isto é, com as freguesias de Rocas, de Sever do Vouga, Junqueira e S. Pedro de Castelões, do concelho de Vale de Cambra, e Palmaz do concelho de Oliveira de Azeméis. A sul, a delimitação começa no sítio dos Salgueiros, onde existe o marco geodésico, e daí em linha recta passando por Pedras Aveias, Ramalhal, Minas do Narciso até ao ponto sobre a corga de Portas Vermelhas ( km 12,5 da E.N.328); daí nova linha , passando pelo Silvedo, Tomadas, Alto de S. Domingos ( marco geodésico), Monte da Serra, Fontanheiras, e Pena Fundeira. A freguesia engloba na sua área os lugares de Boialvo. Dornelas (sede), Reguengo, Rio Bom e Zibreiros.
Exceptuando o Reguengo, todos os lugares são citados no Cadastro da População do Reino ( Primeiro Numeramento – 1527) com 19 fogos : Rio Bom e Zibreiros, 5; Dornelas, 10; Boialvo, 4. A informação paroquial de 1732, do abade de Sever, João Barbosa de Almeida, além destes lugares inclui também a Decide, com o total de 72 fogos; e em 1821, o abade de Pessegueiro, Manuel António Dias Santiago, na resposta que deu aos quesitos sobre o estado das paróquias do 2 º Arciprestado de Lafões, informava que: Boialvo tinha 4 fogos e 15 habitantes, Rio Bom 4 fogos e 10 habitantes, Zibreiros 1 fogo e 2 habitantes, Dornelas 45 fogos e 109 habitantes e Reguengo 9 fogos e 34 habitantes, ou seja, 63 fogos e 170 habitantes – uma média de três habitantes por fogo, incluindo as crianças, os inocentes como lhes chamava.
O censo de 1991, o primeiro efectuado após a constituição da freguesia, forneceu a seguinte população residente: 715 indivíduos, sendo 349 do sexo masculino e 366 do sexo feminino, compreendendo 271 fogos e 225 famílias.
Dornelas tem uma existência milenária. Na verdade, as inquirições do tempo de D. Dinis referem-na como honra, entre os julgados da Feira, Cambra, Figueiredo e Sever, de todos separada por marcos e divisões, não fazendo foro ao rei. Isto significa que pertencera a filho de algo, de nome Gonçalo Viegas, que viveu no tempo de D. Sancho I e passara aos seus herdeiros.
Dizem as devassas tiradas por ordem do monarca:
" Item disseron que na Aldea de Dornelas est onrra de uedro de Dom Gonçalo ueegas. Haa ora Pedro affonso ribeyro e Afonsso paez e aqueles que deles decendem. E disseron que ouuirom sempre dizer que esse onrra iaz en o antiguo Julgado da feyra e de Caanbra e de figueyredo e de Seuer e de todos est marcada e partida por marcos e diuisões e disseron que nom sabem a el Rey ende foro nenhum. Ca os senhores das honrras metem y ouuidores en logo de Juizes e chegadores. E disseron que nom há y Juiz ordinhayro del Rei nem er ueem y entrar porteyro e nom sabem se deuem y entrar se nom nem se deue y el Rey meter Juiz se nom."
Donde se conclui que, por ser honra, tinha jurisdição própria.
Diz a tradição que a primeira igreja de Silva Escura se situava , algures, em Dornelas, num local conhecido por " terras da igreja", assumindo-se como matriz da instituição paroquial, provavelmente no mesmo local onde teria existido um pequeno cenóbio. Lobo e Silva refere-se a esta tradição na sua monografia " Sever do Vouga ".
A sua localização, porém, causava naturais transtornos à população, especialmente na época das chuvas. Se a esse facto juntarmos a questão suscitada entre o abade e o fidalgo Gonçalo Viegas, que sobre eles se arrogava certos direitos, acabou por ser transferida para o vale com o consentimento do rei, presumivelmente para o local onde foi construída a capela da Senhora da Graça, inicialmente consagrada a Santa Maria, que o abade Brito Robles mandou reedificar em 1622, tal o seu estado de ruína.
Em 1716, frei Agostinho de Santa Maria, visitando a capela, registou no seu " Santuário Mariano": "...Alguns presumem que aquela Ermida da Senhora se faria com o fim de ouvirem missa naqueles dias que lhes não era fácil acudir à paróquia quando estava no alto da serra, donde se transferiu para o mesmo vale..."
A informação paroquial de 1732, do padre-cura Gaspar Esteves, alude a cinco ermidas na freguesia de Silva Escura e, entre elas, à de "S. Mamede , em que se costuma ajuntar alguma gente em 17 de Agosto." E no dia 18 de Setembro de 1747, na casa do tabelião João Soares Machado, de Vila Fria, foi feita a escritura de obrigação relativa à nova construção de raiz, pedindo o juiz eleito da Igreja licença para a sua benção, prestando o reverendo José Leandro de Sousa Valadares, abade de Silva Escura, a seguinte informação que lhe competia dar:
"Primeiramente, pelo que respeita ao sítio, foi erecta no mesmo em que estava a outra da mesma invocação, na qual até agora se disse missa, e por estar já muito velha, um devoto a fez à sua custa, a fundamentis... A capela está muito decente para nela se celebrar e bastantemente paramentada, pois além dos ornamentos que já tinha, o mesmo devoto que a fez lhe deu um inteiro, encarnado e branco, com alva, missal, galhetas e cálice, tudo com muita perfeição, de sorte que, entre todas as capelas de freguesia e particulares, esta é a que hoje se acha com mais decência."
Não sabemos em que data S. Mamede deixou de ser o orago para passar à invocação da Nossa Senhora das Necessidades. Mas em 1821 já era referenciada como tal, segundo a informação prestada pelo abade de Pessegueiro do Vouga, Manuel António Dias Santiago.
A igrejinha da freguesia de Dornelas, próxima do cemitério, foi iniciada em 1980 e concluída em Agosto de 1982, com o esforço do povo. Presidiu à sua inauguração o bispo coadjutor da Diocese, D. António Marcelino, sendo ao tempo Pároco da freguesia de Silva Escura o Reverendo Augusto Fernandes da Costa. É da invocação da Nossa Senhora de Fátima.
Foi construída no local onde cerca de três décadas existiu uma capela, demolida por não possuir qualquer valor arquitectónico. Apesar da sua simplicidade, todas as suas linhas tornam o conjunto harmonioso e moderno.


Fernando Soares Ramos

Fonte: Sever do Vouga – Uma Viagem no Tempo
Edição da Câmara Municipal de Sever do Vouga, 1998